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Em que mundo vive Esmeralda? (Gilberto Dimenstein)
Publicado por Alessandro de Melo [alessandro] em 22/8/2009 (1374 leituras)
Em que mundo vive Esmeralda? (Gilberto Dimenstein)
Em que mundo vive Esmeralda?

Ex viciada e ex-traficante de crack, Esmeralda Or-tiz se descobriu uma sobrevivente solitária quan-do começou a escrever sua história de vida. Ao remexer e ordenar o passado, procurou os ami-gos com quem se viciou, traficou e assaltou, com-panheiros de inúmeras prisões e de noites dormi-das nas ruas. Estavam mortos, presos ou mental-mente incapacitados, vítimas da devastadora on-da do crack. Esmeralda faz parte de uma estatís-tica divulgada pela faculdade de Medicina da Uni-versidade de São Paulo, baseada no estudo de 270 viciados em crack.: 87% se envolveram em atos violentos, 62% admitiram ter roubado. Se-gundo esta pesquisa, 92% relataram sintomas de doenças respiratórias e 84% de doenças cardio-vasculares. A imensa maioria citou ter passado por depressão e surtos de paranóia. Os pesquisa-dores constataram como era rotineira a tentativa de suicídio.

Sobrevivente da geração crack, Esmeralda in-vestigou seu passado com a seguinte dúvida: Por que escapou do destino dos seus amigos? Voltou à cadeia para falar com os amigos, colheu pron-tuários nas prisões e clínicas psiquiátricas por on-de passou, entrevistou terapeutas e assistentes sociais que a acolheram. Dessa pergunta, surgiu o livro, misto de diário de acerto de contas pes-soal, intitulado Esmeralda: Por que não dancei.

Diziam que eu não tinha jeito, estava perdida. Eu mesma achava que não tinha jeito, escreve. Co-mo a maioria daqueles que entraram no crack, imaginava-se mais forte do que a droga. Eu pen-sava que em mim nunca ia entrar essa de crack, porque via os meninos do crack descabelados, sem tomar banho, se humilhando por causa de uma pedra. Não resistiu. Cada vez que eu usava, mais eu queria. Eu vivia para usar e usava para viver. Às vezes ficava uns dois meses sem tomar banho. A delinqüência tornou-se, então, obriga-ção. Eu roubava qualquer um que estivesse na frente. Às vezes, ficava com tanta fissura que via um policial parado na minha frente e ficava pen-sando em dar um bote na arma, sair correndo e trocar por uns cinco papéis. Vender virou a saída para comprar crack. Os traficantes me disputa-vam, porque eu vendia muito e pagava para eles.

Na rua desde os oito anos, quando fugiu de casa por não suportar a violência da mãe e o abuso se-xual do padrasto, conheceu a estrutura de poder das gangues se misturando com a dos policiais, o implacável código de silêncio – cujo desrespeito implica a morte – e, depois, o código brutal da Febem. Em pouco tempo, sentia-se refém da dro-ga. Magra, cabelo raspado, andava armada. Esta-va vendo meus amigos morrendo ou sumindo. Eu vegetava, não tomava banho, ficava fedida. Sen-tindo-se sem alternativa, desejava a morte, supu-nha que uma overdose liquidaria a angústia. Mas, ao mesmo tempo, queria se livrar da droga. Esta-va conformada com a morte, mas, às vezes, eu rezava do meu jeito, pedia pra Deus me ajudar a sair daquela vida.

Aquele lado que ainda tinha uma tênue esperan-ça de saída fez com que se aproximasse, lenta-mente, de educadores do Projeto Travessia, no centro de São Paulo. Viveu então altos e baixos, mais baixos do que altos, com as freqüentes re-caídas. Tive de perdoar meu passado, para poder me perdoar, escreve em seu livro. Na busca de apoio e cumplicidade, associou-se a grupos de vi-ciados que procuravam tratamento, internou-se para desintoxicação, participou de oficinas de arte, voltou para a escola, arrumou uma casa. Des-cobriu sua paixão pela comunicação, o prazer de escrever poesias e músicas e a vontade de escre-ver um livro. Foi construindo sua alto estima.

Cometi muitas insanidades. Prejudiquei muitas pessoas. Às vezes, passo na rua e vejo as pes-soas que eu já roubei, que já maltratei. Não tenho vergonha. Olho nos olhos delas e peço desculpas.
Fez vestibular para um curso de Comunicação, sem acreditar que seria aprovada. Escreveu mais um livro infantil sobre as brincadeiras de rua...

Fonte: Gilberto Dimenstein – O mistério das bolas de gude. São Paulo: Papirus, 2006. pp. 105-108.

Com base no texto acima, faça uma dissertação sobre o tema:
“A trajetória de Esmeralda é fruto das relações sociais em que viveu ou fruto de suas opções ao longo da sua vida”


Obs: mínimo 20 linhas, com citações do texto em que aparecem as relações sociais vividas por Esmeralda.
Este é um exercício prático de Sociologia, para verificar o entendimento do conceito fundamental de relações sociais. Aproveitem!

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